Quando o telhado mete água

 

Sobre a suposta obrigação de respeitar a escolha dos sócios:

Moro num prédio com 20 inquilinos, 4 por andar.

A cada ano, a malta faz contabilidade com as verbas alocadas para manutenção.

Votei, e mais um ou dois inquilinos, para canalização da verba para manutenção do telhado, limpeza dos detritos, telhas e impermeabilização. Tal é necessário, porque todos os Invernos, a água infiltra-se pelo edifício, chegando a entrar na casa de cada um, queimando electrodomésticos e colocando em risco a vida das pessoas, caindo nos quadros eléctricos.

A canalização das verbas é sujeita a votação.

 Parece que este ano, vai estar muito calor e a maioria dos inquilinos, aí uns 65%, votaram para construção de uma piscina num espaço contíguo do prédio. Segundo os defensores da ideia, a piscina valorizaria em 200% o valor do edifício. Eu e mais 2 ou 3, votámos contra, outros se abstiveram.

A uns meses do Inverno, alguém avança a ideia de que a piscina fica bem é no telhado, para usufruto de todos, valorizando o edifício uns 300% e podendo depois ser vendido o pequeno terreno contíguo, aumentado os ganhos para todos os proprietários, uns 400%.

Entretanto sai a notícia de que o Inverno será chuvoso e rigoroso.

Nas primeiras 5 semanas, a piscina estava apinhada com moradores, mas assim que passou de novidade, foi tendo cada vez menos assistência.

O administrador de condomínio foi reeleito, e não mora no prédio, tem a casa alugada, e mora noutra vila próxima. Mas veste fatos Armani, usa relógios Patek Phillipe, e é apreciado por todos os moradores, porque foi alguém importante, e chorou uma vez quando se pintou a fachada do prédio.

Outros se candidataram, mas a maior parte dos inquilinos não gostou da pinta dos mesmos. Ficou na retina da maioria, a lágrima vertida na fachada pintada.

No Inverno choveu como nunca, as caleiras rebentaram, e a água que entrou na casa de todos, tornou praticamente inabitável o imóvel. Fala-se até em demolição.

Desvalorizou imenso, e cada vez mais os moradores têm menos orgulho e esperança de melhores dias deste prédio outrora imponente.

Eu e outros temos a casa alagada, e mesmo que queiramos, não conseguimos vender as casas, perdendo mais de 50% do valor investido nela ao longo dos anos.

Ficámos todos mais pobres, com a vida mais cinzenta. Talvez um dia sobrem algumas ruínas.

Os outros inquilinos não me falam, apenas passam por mim e fazem má cara, chamando-me nomes nas costas, porque votei contra a piscina, e sou aparentemente culpado pela infiltração da água, que deve chagar aos alicerces do edifício retirando-lhe solidez.

Muito poderia dizer, mas gostaria de deixar a pergunta, sobre se tenho de pagar pela estupidez alheia. Chamam-lhe ‘democracia’ parece, o governo da maioria por uma mediocridade.

Alguns podcasts e blogues, reiteram a ideia de que há que respeitar a legalidade democrática, que o administrador do condomínio pode fazer o que quiser, mandatado pelos inquilinos.

A minha vida é afectada, e a dos outros que perceberam que o telhado estava a deixar infiltrar água e que a função das casas, é permitir que se viva com algum grau de conforto e segurança.

Fomos, tal como o prédio, prejudicados pela acção dos moradores de vistas curtas, assustados com as sombras lá fora, quando não percebem a infiltração interna.

Empobreci, o prédio desmorona-se e já se defende que se calhar é melhor demolir o prédio, por motivos de segurança. Os vendedores de piscinas fizeram o seu, o administrador não vive no prédio, e eu gostaria de saber que justiça é esta.

O prédio tem um sistema de eleição baseado em democracia directa, e não representativa. Portanto sabemos mais ou menos quem votou pela continuidade. Temos de viver com eles no mesmo espaço. Antigamente, o prédio elegia administradores ano sim, ano não, e manteve-se de pé. Mas os moradores adoram, o administrador actual.

Aos que estão sempre a sacar a carta da legalidade democrática e do cumprimento de mandatos, gostaria de lembrar que quando o movimento é em direcção ao abismo, a suposta democracia se torna na tirania da maioria. Maioria da mediocridade.


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